Copyright © Primeirona
Design by Dzignine
15 de fev. de 2011

Ladrões invadem igreja e arrancam cofre da parede

Marcela Oliveira | Primeira Edição

Ao chegarem para ensaiar, os integrantes do grupo de música da 1ª Igreja Presbiteriana no Tabuleiro levaram um susto neste fim de semana: um dos vidros da porta estava quebrado, tudo revirado e um buraco na parede onde o cofre estava localizado. Outro transtorno a ser enfrentado pelos líderes da igreja foi a demora na confecção do Boletim de Ocorrência.

Ladrões aproveitaram a falta de vigilância e arrombaram a parte inferior da porta de alumínio do salão, depois de terem quebrado o vidro da porta lateral, por onde, provavelmente, tentaram entrar primeiro.
Thiago Oliveira/Cortesia
Thiago Oliveira/Cortesia
No gabinete, tudo revirado

Eles invadiram o gabinete pastoral e reviraram tudo. Em seguida quebraram a parede onde o cofre estava e conseguiram retirá-lo, porém estava vazio. Eles também entraram no templo principal e roubaram um aparelho de dvd. “É a primeira vez que isso acontece. O que ocorreu por três vezes foi roubo de fio, mas o vizinho tomou umas medidas colocando arame farpado no poste
e nunca mais roubaram o fio”, disse Thiago Oliveira, um dos membros da igreja.

Thiago Oliveira/Cortesia
Thiago Oliveira/Cortesia
Cofre foi arrancado da parede
No primeiro andar, onde funcionam as turmas infantis, eles também promoveram bagunça e pegaram o dinheiro que havia na caixinha. “Ainda tomaram um refrigerante que estava na geladeira e abriram pipocas e confeitos das crianças, além de deixar a geladeira aberta e levar o dinheiro que havia na caixinha do departamento infantil”, contou. “Apesar de toda a bagunça e de haver outros objetos de valor, só levaram o dvd e esse dinheiro”, contou Thiago.
Thiago Oliveira/Cortesia
Thiago Oliveira/Cortesia
Em seguida, o pastor João Paulo e sua esposa, Jocélia Pacheco foram ao 5º Distrito Policial para fazer o BO, mas estava fechado devido à reforma. Eles então seguiram para a Delegacia de Plantão 2, no Salvador Lyra, mas só havia uma pessoa. “Não tinha delegado, nem escrivão. Só tinha uma policial que nos disse que só poderia fazer o BO à noite, quando chegasse outro policial. Nós insistimos e ficamos reclamando dizendo que aquilo era um absurdo, foi então que ela cedeu e fez o boletim. Nesse ínterim chegaram outras três pessoas e saíram de lá sem conseguir fazer o BO. Depois fomos à Central de Polícia, onde conseguimos que uma equipe de peritos fosse enviada”, disse Jocélia. Os peritos colheram algumas digitais e retiraram fotografias do local, mas até o momento, nenhum suspeito foi identificado.
26 de dez. de 2010

Natal 2010


Confira as fotos do Culto de Natal da Primeirona, clique aqui!
7 de set. de 2010

Uma Introdução à Cosmovisão Calvinista Kuyperiana


A comunhão ‘de estar’ de Deus deve tornar-se realidade, na realização plena e
vigorosa de nossa vida. Deve penetrar e dar cor a nossos sentimentos, nossas
percepções, nossas sensações, nossos pensamentos, nossa imaginação, nossa
vontade, nosso agir, nosso falar. Não deve colocar-se como um fator estranho
em nossa vida, mas deve ser a paixão que inspira toda existência1.
Não existe uma só polegada, em todo o domínio de nossa vida humana, da
qual Cristo, que é soberano de tudo, não proclame: ‘Minha!’
1. Introdução
Pretendemos neste artigo traçar um rápido esboço da Cosmovisão
Calvinista como retratada pelo Calvinismo Holandês de Abraham Kuyper em suas
célebres Palestras Stones, proferidas em 1898, no Seminário Teológico de Princeton,
nos Estados Unidos.
Evidentemente, antes, precisamos dar uma nota biográfica sumária sobre
Kuyper para aqueles que ainda não o conhecem. Nascido em Maassluis,
Holanda, em 29 Outubro de 1837, faleceu em 1920 com a idade de 83 anos.
Graduou-se na Universidade de Leyden, com a mais alta honra, obtendo seu
Doutorado em Teologia Sagrada em 1863, com cerca de 26 anos de idade.
Tornou-se editor nos jornais De Standaard, órgão oficial do partido Anti-
Revolucionário, e De Heraut, um jornal nitidamente cristão, por mais de 45 anos.
Em 1877 foi eleito membro da Casa Baixa do Parlamento (Câmara dos Deputados)
e, em 1880, fundou a Universidade Livre de Amsterdã que adotava a Bíblia como
base para todo o desenvolvimento da estrutura do conhecimento. Assumiu a
liderança do partido Anti-Revolucionário até 1901, ano em que foi convidado
pela rainha Guilhermina para ser primeiro-ministro, ocupando o cargo até 1905.
É mundialmente conhecido como uma influente e eminente pessoa pública da
Holanda.
Na sua longa e profícua vida atuou em muitos campos do conhecimento.
Foi estudante, pastor, pregador, linguista, teólogo, professor universitário, líder
de partido, organizador, estadista, filósofo, cientista, publicista, crítico e
filantropo. Sua capacidade de produção era quase sobre-humana. Foram mais
de duzentas obras, algumas das quais de mais de quatro volumes, cobrindo
uma série muito vasta de assuntos. Sua obra era multiforme num grau
impressionante. Apesar disso, orgulhava-se de ser um homem do povo e nunca
se recusou a receber qualquer um que o procurasse em busca de conselhos.
Apesar de um teólogo profundo, era um cristão piedoso. Produziu uma
obra prima da literatura devocional denominada Estar Perto de Deus. Suas
conhecidas Palestras Stones são o objeto desta reflexão que fazemos. Pode-se ter
um vislumbre do segredo da vida deste homem meditando naquilo que ele
disse3 por ocasião do seu 25º aniversário como editor do De Standaard:
Um desejo tem sido a paixão predominante de minha vida. Uma grande
motivação tem agido como uma espora sobre minha mente e alma. E
antes que seja tarde, devo procurar cumprir este sagrado dever que é
posto sobre mim, pois o fôlego de vida pode me faltar. O dever é este:
Que apesar de toda oposição terrena, as santas ordenanças de Deus serão
estabelecidas novamente no lar, na escola e no Estado para o bem do
povo; para esculpir, por assim dizer, na consciência da nação as
ordenanças do Senhor, para que a Bíblia e a Criação deem testemunho, até
a nação novamente render homenagem a Deus.
Passemos de imediato ao conceito de cosmovisão definido por Sire4, em
sua essência, como:
[...] um conjunto de pressuposições (hipóteses que podem ser verdadeiras,
parcialmente verdadeiras ou inteiramente falsas) que sustentamos
(consciente ou inconscientemente, consistente ou inconsistentemente)
sobre a formação básica de nosso mundo.
Neste sentido Kuyper apresenta, em suas palestras, o Calvinismo como
um conjunto de pressuposições verdadeiras, conscientemente sustentadas por
todo calvinista consistente, para suporte de suas ações no mundo. Na realidade,
o termo sistema de vida é utilizado por Kuyper nestas palestras para traduzir o
termo de origem alemã Weltanschauung, cuja tradução literal seria conceito do
mundo ou cosmovisão. Todavia, para evitar que mesmo esta tradução pudesse
estar excessivamente associada aos aspectos físicos da natureza, ele utiliza
também a tradução alternativa concepção de vida e do mundo à qual poderíamos
também denominar biocosmovisão.
É necessário ainda explicitar o contexto no qual as referidas palestras
kuyperianas foram proferidas para podermos compreender algumas de suas
ênfases. Quando Kuyper proferiu as seis Palestras de Stone na Universidade de
Princeton, em 1898, estava no auge o grande conflito mortal de princípios entre
o Modernismo e o Cristianismo. Ele apresentou o Modernismo como herdeiro
da Revolução Francesa de 1789, cujo lema principal era: “Nenhum Deus,
nenhum senhor”. O combate se trava ordenando-se princípio contra princípio,
pois5:
O Modernismo está comprometido em construir um mundo próprio a
partir de elementos do homem natural, e a construir o próprio homem a
partir de elementos da natureza; enquanto que, por outro lado, todos
aqueles que reverentemente humilham-se diante de Cristo e o adoram
como o Filho do Deus vivo, e o próprio Deus, estão resolvidos a salvar a
‘herança cristã’.
Assim, Kuyper escolheu falar sobre o Calvinismo como ‘a única,
decisiva, lícita e consistente defesa das nações protestantes contra o usurpador e
esmagador Modernismo6’. Foram ministradas seis palestras sobre o tema:
Calvinismo como Sistema de Vida, Calvinismo e a Religião, Calvinismo e a Política,
Calvinismo e a Ciência, Calvinismo e a Arte e Calvinismo e o Futuro.
Atualmente, mais uma cosmovisão apresenta-se disputando o controle
da mente das pessoas, o Pós-modernismo. Contudo, em 1898, a grande serpente
que elevava sua cabeça ameaçadora contra o cristianismo era o Modernismo, a
respeito do qual Kuyper bradou7:
Não foi da Grécia ou de Roma que saiu a regeneração da vida humana; -
esta metamorfose poderosa remonta a Belém e ao Gólgota; e se a Reforma,
em um sentido ainda mais especial, reivindica o amor de nossos corações
é porque ela tem dispersado as nuvens do sacerdotalismo e tem
novamente revelado a mais plena visão das glórias da cruz. Mas, em
oposição mortal a este elemento cristão, contra o próprio nome cristão e
contra sua influência salutar em cada esfera da vida, a tempestade do
Modernismo tem agora surgido com intensidade violenta.
2. O Calvinismo como Sistema de Vida: As Três Relações Básicas
Nas Palestras Stones o termo calvinismo não é utilizado no sentido
pejorativo e sectário, nem no sentido dogmático e confessional daqueles que
subscrevem o dogma da predestinação e nem no sentido qualificativo
denominacional. Porém, ele é utilizado no sentido de sua acepção científica
querendo-se com isso dizer que “o Calvinismo tem uma teoria de ontologia, de
ética, de felicidade social de liberdade humana, derivada totalmente de Deus8”.
Ou seja, Kuyper se propõe a abordar o Calvinismo como9...
[...] uma tendência geral independente, que de um princípio matrix
próprio, tem desenvolvido uma forma independente tanto pra nossa vida
como para nosso pensamento [...].
Além disso, o Calvinismo é contraposto, lado a lado, com os três grandes
complexos da vida humana (o Paganismo, o Islamismo e o Romanismo),
formando um conjunto de quatro mundos diferentes de pensamento que
caracterizam a nossa época. Talvez o correto teria sido colocar o Cristianismo
em oposição ao Paganismo e Islamismo, todavia Kuyper escolhe incluir o
Calvinismo já que este “reivindica incorporar a idéia cristã mais pura e acurada
do que poderia fazer o Romanismo e o Luteranismo”.
Ele argumenta que, entre as expressões existentes do Cristianismo,
somente duas podem se colocar como tendo incorporado “seu pensamento de
vida num mundo de concepções e expressões inteiramente próprias” de si
mesmas: o Romanismo, que através de sua hierarquia é e permanece uniforme;
e o Calvinismo, que surge em oposição ao Romanismo. De maneira peculiar, o
Calvinismo surgiu10...
[...] não simplesmente para criar uma forma de Igreja diferente, mas uma
forma inteiramente diferente para a vida humana, para suprir a sociedade
humana com um método diferente de existência, e para povoar o mundo
do coração humano com ideais e concepções diferentes.
Ele não surgiu primeiramente como o resultado de um estudo teológico
que então invadiu a vida, mas no contexto da vida e do enfrentamento das
batalhas da vida e da estaca não tendo inicialmente muito tempo para se
dedicar ao estudo. “Na ordem da existência, a vida vem primeiro”. O estudo
mais profundo do Calvinismo veio depois quando surgiu a necessidade de
refletir a existência como uma unidade no espelho da consciência.
Em contraste com o Romanismo, o Islamismo e até com o Modernismo
que apresentam uma convicção de vida dominada por um princípio, somente o
Protestantismo vagueia de um lado para o outro sem propósito e direção sendo
presa fácil do Modernismo11. Kuyper atribui a fraqueza do Protestantismo
diante desse inimigo simplesmente ao fato de ele carecer de uma igual unidade
de concepção de vida12:
[...] Somente isto poderia habilitar-nos com irresistível energia para repelir
o inimigo na fronteira. Esta unidade de concepção de vida, contudo,
nunca será encontrada num conceito vago do Protestantismo, envolvido
em todo tipo de caminhos tortuosos. Vocês o encontrarão naquele
poderoso processo histórico, no qual como Calvinismo cavou seu próprio
canal para o poderoso curso de sua vida. Apenas por essa unidade de
concepção, como dada no Calvinismo, vocês na América e nós na Europa
poderíamos ser capazes, uma vez mais, de tomar nossa posição ao lado
do Romanismo, em oposição ao Panteísmo moderno. Sem essa unidade
de ponto de partida e sistema de vida devemos perder o poder para
manter nossa posição independente, e nossa força para resistir deve
declinar.
Kuyper passa então a demonstrar que o Calvinismo, para se estabelecer
como um sistema de vida que apresente unidade, firmes raízes no passado,
capacidade de fortalecimento no presente e confiança no futuro, deve, partindo
de um princípio especial, poder responder de maneira peculiar às nossas
necessidades de relações com: Deus, o homem e o mundo.
A primeira condição, a questão do nosso relacionamento com Deus13, não
está radicada no nosso intelecto, mas no coração e implica na oração, pois:
[É] nas profundezas de nossos corações, no ponto onde nos mostramos a
nós mesmos ao Único Eterno, [que] todos os raios de nossa vida
convergem como em um foco. Somente ali recobramos a harmonia que
nós tão freqüente e penosamente perdemos no stress do dever diário. Na
oração encontramos não somente nossa unidade com Deus, mas também
a unidade de nossa vida pessoal.
Enquanto o Paganismo vê Deus na criatura, o Islamismo separa Deus da
criatura e o Catolicismo coloca a Igreja entre Deus e a criatura, no Calvinismo14,
Deus se comunica com a criatura, pois ele...
[...] proclama o pensamento glorioso que, embora permanecendo em alta
majestade acima da criatura, Deus entra em comunhão imediata com a
criatura, como Deus Espírito Santo. Este é o próprio coração e âmago da
confissão calvinista da predestinação.
O princípio então é que há uma comunhão imediata do homem com o Eterno,
independentemente do sacerdote ou igreja. O Calvinismo ultrapassa até mesmo
o Luteranismo como criador de uma cosmovisão inteiramente própria. E a
causa primária disso é que enquanto o Luteranismo enfatiza os aspectos
subjetivo e antropológico, partindo do princípio soteriológico especial da
justificação pela fé, o Calvinismo enfatiza os aspectos objetivo e cosmológico,
partindo do princípio cosmológico geral da soberania de Deus15.
Segundo Kuyper, todo sistema de vida em geral é dominado pela
interpretação da nossa relação com Deus. E no caso do Modernismo, que
nasceu da Revolução Francesa de 1789 e cujo lema era a ausência total de
relacionamento com Deus, essa mesma falta de relacionamento deu origem à
sua cosmovisão. Entretanto, o Calvinismo não foi o resultado de um trabalho
intelectual engenhoso de um homem, Calvino, mas foi o resultado de um
mover irresistível do Espírito Santo sobre os corações de homens comuns da
Europa Ocidental do século XVI, os quais foram admitidos pelo próprio Deus à
comunhão com a majestade de seu ser eterno. É desse princípio que emerge o
pensamento-matriz de vida abrangente do Calvinismo16:
Graças a esta obra de Deus no coração, a convicção de que o todo da vida
do homem deve ser vivido como na presença divina tem se tornado o
pensamento fundamental do Calvinismo. Por esta ideia decisiva, ou
melhor, por este fato poderoso, ele tem se permitido ser controlado em
cada departamento de seu domínio inteiro.
A segunda condição, é a questão do nosso relacionamento com o homem,
que vai determinar a forma com que construiremos nossas vidas. A vida é
marcada pela multiformidade sem fim: há diferenças de sexo, sociais,
econômicas, genéticas, de dons e talentos físicos e espirituais. É a aceitação de
um dos sistemas de vida consistentes que determinará quais características
serão enfraquecidas ou acentuadas.
Por um lado o Paganismo acentua as diferenças através do seu
politeísmo e sistemas de castas; por outro, o Islamismo e o Catolicismo fazem a
mesma coisa evocando os conceitos do paraíso e da inferioridade da mulher e
do kafir em relação ao fiel muçulmano, ou evocando a interpretação hierárquica
do relacionamento entre os seres, nas regiões celestiais, na igreja e entre os
homens, gerando uma interpretação aristocrática da vida; ao passo que o
Modernismo “destrói a vida pondo-a sob a maldição da uniformidade17”,
buscando eliminar todas as diferenças. O Calvinismo, porém, vê os homens
como iguais diante de Deus e entre si, permanecendo apenas as distinções
impostas pelo próprio Deus, condena até a escravidão dissimulada da mulher e
do pobre, não tolera a aristocracia e apóia a interpretação democrática da vida,
proclama a liberdade das nações, respeitando os homens por haverem sido
criados à imagem de Deus, modifica a estrutura da sociedade sem apelar para a
luta de classes, valoriza o trabalho de tal maneira que ricos e pobres possam se
encontrar de joelhos diante de Deus18, nas palavras de Kuyper:
Ter colocado o homem em uma posição de igualdade com o homem é a
glória imortal que pertence incontestavelmente ao Calvinismo. A
diferença entre ele e o sonho selvagem de igualdade da Revolução
Francesa é que, enquanto em Paris ocorreu uma ação de comum acordo
contra Deus, aqui, todos, rico e pobre, estavam sobre seus joelhos diante
de Deus, consumidos com um zelo comum pela glória de seu nome.
A terceira condição, é a questão do nosso relacionamento com o mundo.
No Paganismo estima-se o mundo de uma maneira muito alta e por isso tem-se
medo de e se perde no mundo. No Islamismo, ao contrário, há uma estimativa
muito baixa do mundo, como consequência zomba-se e triunfa-se sobre o
mundo lançando mão do mundo visionário do paraíso sensual. No Romanismo,
a Igreja tenta reger o mundo, que está em antítese com os círculos cristãos, pois
tudo que está debaixo da esfera da Igreja é santificado, está exorcizado, ao
passo que o que se encontra na esfera do mundo está sob maldição e sob a
influência de demônios. A Igreja procura dominar sobre tudo, manter tudo
debaixo de sua chancela e tutela, da vida familiar, passando pelas artes e
ciências, até a vida social e negócios. A estaca está preparada para o bruxo e o
herege e o ideal é a fuga do mundo através das ordens monásticas e clericais.
Dessa maneira o mundo terminou por corromper a Igreja e a Igreja acabou por
obstaculizar o livre desenvolvimento da vida19.
O Calvinismo, em contraste, reconhece Deus no mundo, operando
através da Graça Particular para a salvação e através da Graça Comum para
suavizar a maldição, suspender a corrupção e permitir o livre desenvolvimento
da vida. Através do Calvinismo, a Igreja recupera o seu verdadeiro papel,
retrocedendo até à congregação dos crentes e emancipando a vida do mundo
do seu domínio, permanecendo, porém, sob a dependência de Deus. A vida
doméstica, os negócios e o comércio recuperam a independência. A arte e a
ciência não ficam mais debaixo do vínculo eclesiástico e os homens recuperam o
santo dever de sujeitar a natureza com suas forças e tesouros ocultos, através do
mandato cultural20.
Doravante, a maldição não deveria mais repousar sobre o mundo em si,
mas sobre aquilo que é pecaminoso nele. Em vez do voo monástico para
fora do mundo é agora enfatizado o dever de servir a Deus no mundo, em
cada posição da vida. Louvar a Deus na Igreja e servi-lo no mundo
tornou-se o impulso inspirador; na Igreja, deveria ser reunida força par
resistir à tentação e ao pecado no mundo. Deste modo, a sobriedade
puritana veio de mãos dadas com a reconquista da vida toda do mundo, e
o Calvinismo deu o impulso para este novo desenvolvimento que ousou
encarar o mundo com o pensamento romano: nil humanum a me alienum
puto, embora nunca permitiu-se ser intoxicado por sua taça venenosa.
Do lado do Protestantismo, contudo, o Anabatismo se colocou em
antítese com o Calvinismo, confirmando o ponto de partida monástico,
generalizando-o e tornando-o uma regra para todos os crentes. Outrossim, deu
origem ao Acosmismo entre os protestantes da Europa Ocidental, negando
qualquer legitimidade às atividades humanas fora da cobertura da igreja.
Culminou com o triste episódio de João Leiden, invadindo e conquistando a
cidade de Munster e se autoproclamando rei da Nova Sião, executando seus
opositores, instituindo uma comunidade de bens e a poligamia. Todavia21,
[...] o Calvinismo rejeitou a teoria anabatista [a respeito do mundo] e
proclamou que a Igreja deve retirar-se novamente para dentro de seu
domínio espiritual, e que no mundo nós deveríamos realizar as potências
da graça comum de Deus.
3. O Calvinismo no Desenvolvimento da Humanidade22
Para que o Calvinismo possa reivindicar a energia e devoção de nossos
corações é preciso demonstrar que ele teve a honra de levar a humanidade a um
estágio superior em seu desenvolvimento. Não basta que tenha se firmado num
dado contexto como estrutura independente originando tanto no campo
espiritual quanto no campo social um sistema especial para a vida doméstica e
social. Porque civilizações houve que se fecharam em um círculo próprio e
alcançaram um alto grau de desenvolvimento mas permaneceram isoladas
como os lagos que não se comunicam e não deixaram nenhum benefício para a
humanidade em geral.
Kuyper argumenta que o desenvolvimento da humanidade passou por
estágios representados numa ordem cronológica pelo Paganismo, Islamismo e o
Romanismo. Que em termos espaciais o desenvolvimento da humanidade fluiu
da Babilônia e do vale do Nilo, tornando-se mais caudaloso passando pela
Grécia e chegando até o Império Romano. Depois esse rio seguiu para o
noroeste da Europa, e da Holanda e Inglaterra, alcançou finalmente os Estados
Unidos23 aí já neste último ciclo representado pelo Calvinismo.
Porque o desenvolvimento dos sistemas de vida é orgânico o Calvinismo
lança suas raízes na direção do passado retroagindo para Agostinho, daí para
Paulo em sua carta aos Romanos, daí para os profetas de Israel e então
alcançando as tendas dos patriarcas.
Kuyper argumenta que outro componente é a mistura de sangue através
da miscigenação que é a base física de todo desenvolvimento humano superior.
Através da bênção profética de Noé a humanidade se dividiu em raças e nações,
a partir de Sem e Jafé. Aquelas nações tribais que se miscigenaram alcançaram
um desenvolvimento superior na raça humana, aquelas que não o fizeram
dominaram exclusivamente suas próprias forças inerentes. Porque a história da
raça humana visa ao desenvolvimento da humanidade como um todo era
necessário que houvesse a mistura de sangue para atingir o seu alvo. É possível
ver que na genealogia das nações calvinistas encontra-se a miscigenação das
três principais tribos da Europa Ocidental: a céltica, a romana e a alemã, com
liderança desta última. A América do Norte é o lugar da mistura do sangue de
todas as tribos do mundo antigo, uma vigorosa miscigenação das raças. Por
isso, o Calvinismo conseguiu ali elevar a sua expansão ao maior grau possível
até a época em que as palestras foram proferidas.
Outro sinal de apogeu desse processo de desenvolvimento humano é
quando, sob a influência do Calvinismo, aparece o impulso da atividade
pública do próprio povo. É o desenvolvimento da liberdade política da
humanidade caminhando da menoridade tutelada para a maioridade madura,
conforme Kuyper explica em analogia24:
Como na vida familiar, durante os anos de infância a direção dos afazeres
está nas mãos dos pais, assim também na vida das nações é natural que
durante seu período de menoridade primeiro o déspota asiático deveria
estar à frente de cada movimento, depois algum eminente governador,
mais tarde o sacerdote, e finalmente ambos, o sacerdote e o magistrado
juntos.
A fase da maioridade das nações se caracteriza pelo fato de que “o
próprio povo despertado defende seus direitos e dá origem ao movimento que
deve dirigir o curso dos eventos futuros25”. Essa fase é visível na ascensão do
Calvinismo quando a direção do movimento é invertida:
Até aqui cada movimento para frente tinha saído da autoridade do
Estado, da Igreja ou da ciência, e daí descido para o povo. No Calvinismo,
por outro lado, as próprias pessoas destacam-se em suas classes sociais e,
a partir de uma espontaneidade própria delas, pressionam para frente,
para uma forma de vida e condições superiores. O Calvinismo teve sua
ascensão com o povo.
Para exemplificar isso, Kuyper compara a história dos avanços públicos
nas nações onde vicejou o Luteranismo e naquelas onde o Calvinismo tomou o
seu lugar. Ele então argumenta que na Holanda, onde o heroísmo do espírito
calvinista estava presente, a independência do domínio espanhol só foi
conseguida quando finalmente o ‘povo comum’ se uniu à nobreza e abraçou a
causa em sublevação conjunta. Ou seja26,
Na Suíça, na França, na Holanda, na Escócia e na Inglaterra, e onde quer
que o Protestantismo teve de estabelecer-se na ponta da espada, foi o
Calvinismo que prosperou.
4. Conclusão
A tese de Kuyper, que ele vai desenvolver ao longo de suas seis
palestras, é que a História mostra um avanço do desenvolvimento humano para
um estágio superior e que o Calvinismo não só representa um princípio peculiar
dominando o todo da vida, mas ele satisfaz as condições para a transição de
estágios. Ele não apenas satisfaz todas as condições para esse avanço, mas que se
tornou o fenômeno central no desenvolvimento da humanidade. Ele tem não só
9
contribuído para o enobrecimento da vida social das nações, na verdade, ele
tem induzido este enobrecimento. Ele não só sustenta estas possibilidades, mas
também aprendeu como realizá-las.
Ele arrisca-se a delinear um cenário de como seria o mundo sem o
surgimento do Calvinismo. Nele a Holanda teria sido esmagada pela Espanha a
qual teria também dominado todo o continente americano. O livre
desenvolvimento da Europa e América teria sido impedido. Nas suas próprias
palavras27:
[…] Na Inglaterra e Escócia, os Stuart teriam executado seus planos fatais.
Na Suíça, o espírito de indiferença teria prosperado. […] a balança do
poder na Europa teria retornado à sua primeira posição. O Protestantismo
não teria sido capaz de manter-se na política. Nenhuma resistência
adicional poderia ter sido oferecida ao poder romanista conservador dos
Habsburgo, dos Bourbon e dos Stuart […] [O espírito do ‘Acordo
provisório’ entre os católicos romanos e os protestantes alemães poderia
ter sido bem sucedido e o resultado teria sido] um protestantismo
romanizado, ao reduzir o norte da Europa novamente ao controle da
velha hierarquia.
Finalmente, Kuyper argumenta que o Calvinismo carrega em sua
semente a poder germinador capaz de revitalizar a história28:
Sim, assim como um grão de trigo do sarcófago dos Faraós, quando
novamente confiados à guarda do solo, traz fruto a cem vezes mais, assim
o Calvinismo ainda carrega em si um poder maravilhoso para o futuro
das nações. E se nós, cristãos de ambos os continentes, ainda em nossa
santa luta, ainda estamos esperando realizar ações heróicas marchando
sob a bandeira da cruz contra o espírito dos tempos, somente o
Calvinismo nos equipa com um princípio inflexível, pela força deste
princípio, garantido-nos uma vitória segura, embora longe de ser uma
vitória fácil.
Se a tese de Kuyper puder ser comprovada verdadeira e considerando-se
que o Brasil é um caldeirão de miscigenação de todas as raças, muito mais do
que a dos norte-americanos, seria de se esperar que o Calvinismo aqui
encontrasse um novo e forte impulso rejuvenescedor, maior ainda do que
aquele que outrora habitou na grande nação da América do Norte. E levando
em conta a crise por que passa o cristianismo no Brasil e no mundo, quem sabe
seria hora de examinar honestamente os princípios do sistema de vida ou da
cosmovisão Calvinista e ver se eles teriam o mesmo sucesso se diligentemente
observados entre nós.
Nilson Moutinho dos Santos
8 de ago. de 2010

Um Deus que foi tentado

por Zé Luís | Genizah


Ultimamente, vejo com bons olhos quando cristãos estão em “deserto”. Talvez seja mais uma razão para que me julguem confuso, ainda mais quando vivemos tempos onde a vitória sem luta é tão valorizada.

Gente começando a frequentar uma igreja – por exemplo - e tendo aquele encontro legítimo com o Mestre não faz a menor ideia de quanto sua vida poderá mudar (e quando digo “poderá” é por existir a liberdade deste em escolher até onde o refino de sua alma vai, e assim, definir bem onde essa "engrenagem" pode ser usada). Triste é que em muitas “comunidades” ditas cristãs esse caminho – que é o Caminho – não será trilhado.

Não foi com pouca tristeza que vi o Espírito tentar conduzir candidatos a discípulos, e receber uma instrução farisaica que aquilo era obra do diabo, assim como não foi incomum ouvir o famigerado “tamarrado”, o que, para mim, beira à maior e mais imbecil das loucuras: Se há um pecado sem perdão nesse ou no mundo vindouro, é atribuir obras do Espírito Santo a qualquer espírito imundo. Fariseus fizeram isso, dizendo que o Espírito que atuava em Cristo era por força de Belzebú (que é o príncipe infernal que comanda as moscas das fezes).

Quem levou Jesus para o deserto – para ser tentando pelo diabo – foi o Espírito. Se um discípulo quer ser chamado “cristão”, terá que provar destes dias tão tenebrosos.

Coisa mais sem graça é crente sem marcas de batalha: se torna arrogante, suas histórias de batalhas não possuem quedas e são insonsas: só triunfos e mais triunfos. Para um novo convertido, é a glória: a chance da perfeição, daquela prometida pela serpente a Eva. Muitos, ao conviverem com esses perfeitos seres, descobrem a imensa incompatibilidade em sua oratória e seu cotidiano, e deduzem que caíram em mais um conto mentiroso. Começam a descrer naquele milagre íntimo capaz de converter almas empedradas.

Jesus se submete a vontade do Pai, e esta consiste em enfrentar satanás e a sutileza do que vai em suas três ofertas: o pão, a auto-estima e o poder que as riquezas dão: todo homem, sem exceção, cai nessas tentações e entrega aí sua liberdade. Só Jesus não caiu, embora confesse ter se sentido tentado. “Não tentarás o Senhor teu Deus”. Curioso é que muitos irmãos ditos consagrados garantem não passar por isso. Vivem vendendo essa imagem nos púlpitos, no que outros homens, que dizem ter abandonado essa prática pelo protestantismo, fazem destes ídolos, símbolos a serem erigidos, protegidos a qualquer custo. Quando eles mostram-se homens como nós, a turba se forma, e atribuem a ela a palavra “queda” - a mesma palavra atribuída ao evento com Lúcifer. Uns o protegerão como ídolos a serem preservados, símbolo de um estilo, de uma organização. Outros organizarão linchamentos. O mandamento ordena que eu o ame como a mim mesmo, ou seja: lidar com seu pecado como lido com o meu ( independente se ele mentiu em suas garantias de inefabilidade).

Que venham os desertos, os cabelos desgrenhados e o olhar perdido e desolado pelas batalhas duríssimas. Que venha o diabo, segundo a vontade do Espírito, trazer à tona nossas fraquezas e nos fazer tropeçar em nossas próprias imbecilidades, nos mantendo longe da soberba, e mantendo nossos olhares sempre na horizontal em relação a nossos irmãos. Falo isso com temor, pois não aprecio desertos, mas só digo isso por já conhecer alguns e saber dos benefícios de se aprender a caminhar neles. Em certas situações tive algumas quedas, noutras, muitas.
16 de jun. de 2010

Nunca Tente Persuadir o Tolo Com Argumentos. É Inútil!

Jonas Madureira
Tolos. Se você conhece algum, você vai entender perfeitamente a razão pela qual considero o caminho da persuasão lógica e racional um caminho contraproducente no diálogo com eles (se é que é possível tal diálogo!). A razão é bem simples: o tolo é, por natureza, completamente satisfeito consigo mesmo. Ou seja, ele está tão embriagado de si mesmo que a única coisa que ele consegue aceitar, no diálogo com o outro, é ele próprio e suas idéias. Nada mais lhe interessa senão confirmar ou reafirmar suas teses. Ele não consegue olhar para o outro, esforçando-se por compreendê-lo. E essa incapacidade decorre do fato de que ele foi sociológico-psicologicamente sugestionado a acreditar em si mesmo e em suas idéias sem ter que, ao mesmo tempo, refletir criticamente sobre si mesmo e suas idéias. Em outras palavras, o tolo é aquele que foi ensinado por “autoridades inquestionáveis” a absorver inúmeros pressupostos, muitos deles plausíveis e verdadeiros, porém sem questioná-los, sem pensá-los.

Que não se entenda a tolice dos tolos como uma patologia da qual os hábeis intelectuais estão imunes! Dizer que a tolice faz parte apenas da natureza daqueles que não alcançaram o paroxismo da inteligência humana é um erro crasso que apenas os tolos cometem. É indubitável que a tolice não é, por natureza, um defeito intelectual, mas um defeito humano. Por exemplo, existem pessoas que são intelectualmente ligeiras, sacam as coisas com rapidez, mas são tolas (basta lembrar do filósofo alemão Martin Heidegger, que possuía uma notável habilidade lógico-filosófica, mas que, em um determinado momento de sua vida, defendeu os ideais nazistas). Em contrapartida, existem pessoas que são muito lentas quando pensam, mas são tudo menos tolas (Lutero, por exemplo, vivia reclamando pelos cantos da Universidade de Erfurt, na Alemanha, de que ele jamais poderia ser um teólogo de verdade porque se considerava lento demais para o raciocínio lógico; e, diga-se de passagem, muitos seguidores de Philipp Melanchthon concordariam com Lutero!).

Entender que a tolice é um defeito humano é sacar que todas as pessoas são, por natureza, tolas. Portanto, pessoas não se tornam tolas, elas no máximo deixam de ser tolas. E como elas deixam de ser tolas? Dietrich Bonhoeffer, quando estava preso por causa da perseguição nazista, escreveu inúmeras cartas. Numa delas, ele disse que “somente um ato de libertação poderia vencer a tolice; um ato de instrução ou argumentação lógica nada pode fazer para convencer o tolo de sua tolice. Antes de tudo, o tolo precisa de uma libertação interior autêntica, e enquanto isso não ocorre temos de desistir de todas as tentativas de persuadí-lo”.

Essa necessidade de “libertação interior autêntica”, enfatizada por Bonhoeffer, também pode ser encontrada entre os primeiros filósofos gregos. No livro VII da República, Platão mostra Sócrates “ensinando” para o jovem Glauco que para as pessoas conhecerem a verdade elas precisam ser primeiramente libertas. Para isso, o filósofo contou uma história sobre seres humanos que, desde o seu nascimento, estão aprisionados em uma caverna subterrânea. Eles não sabem o que é o mundo fora da caverna. Suas pernas e seu pescoço estão algemados de tal sorte que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas em direção a uma parede. Atrás deles, na entrada da caverna, há um foco de luz que ilumina todo o ambiente. Entre esse foco de luz e os prisioneiros, há uma subida ao longo da qual foi erguido um pequeno muro. Para além desse pequeno muro, encontram-se homens que transportam estátuas que ultrapassam a altura do pequeno muro. Eles carregam estátuas de todos os tipos: de seres humanos, de animais e de toda sorte de objetos. Por causa do foco de luz e da posição que ele ocupava, os prisioneiros são capazes de enxergar, na parede do fundo, as sombras dessas estátuas, mas sem verem as próprias estátuas, nem os homens que as transportam. Como nunca viram outra coisa além das sombras, os prisioneiros pensam que elas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que as sombras não passam de projeções das coisas, nem podem saber que as coisas projetadas são, na verdade, estátuas carregadas por outros seres humanos.

O que aconteceria, pergunta Sócrates a Glauco, se alguém libertasse os prisioneiros? O que faria um prisioneiro liberto daquelas algemas? Sem dúvida, olharia toda a caverna. Ao seu redor, veria os outros prisioneiros, o pequeno muro às suas costas, as estátuas e a entrada da caverna. Seu corpo doeria a cada passo dado. Afinal de contas, ele ficou imóvel durante muitos anos. Não bastassem as dores do corpo, ao se dirigir à entrada da caverna ficaria momentaneamente cego, pois aquele foco de luz que clareava a caverna, na verdade, era o sol. Porém, com o passar do tempo, já acostumado com a claridade, seria capaz de ver não só as estátuas, mas também os homens que as carregavam. Prosseguindo em seu caminho, passaria a enxergar as próprias coisas, descobrindo que, durante toda sua vida, não contemplara senão sombras das estátuas projetadas no fundo da caverna.

Na condição de conhecedor desse “novo” mundo, o prisioneiro liberto regressaria ao velho mundo subterrâneo. Ao chegar, ele contaria aos outros prisioneiros, ainda algemados, o que viu. Sua missão seria libertá-los, pois é somente na condição de livre que alguém pode ser capaz de contemplar o mundo das coisas tais como elas são. O que mais poderia acontecer após esse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras, pois o único mundo real é o mundo da caverna. Por isso, tentariam silenciá-lo de todas as formas. No entanto, se ele teimasse em afirmar o que viu e insistisse em convidá-los a sair da caverna, os homens das sombras o matariam. Foi assim que Sócrates concluiu o mito da caverna.

Os tolos são aqueles que tomam as sombras como se fossem as coisas mesmas. O homem-que-deixou-de-ser-tolo, porém, é aquele que não se satisfaz com as imagens projetadas no fundo da caverna, mas impulsionado pelo desejo de contemplar as coisas mesmas, arrebenta os grilhões que o aprisionam. Ao se libertar, dirige-se ao mundo verdadeiro. E quando o mundo verdadeiro se abre para ele, ou seja, no momento em que ocorre a revelação da verdade (alethéia), o homem-que-deixou-de-ser-tolo se compraz apenas em perceber sua própria tolice. Esse é o ponto. O tolo, por natureza, não sabe que é tolo, não tem consciência de sua tolice. Ele toma as sombras como se fossem as coisas mesmas. Por isso, a única maneira de um tolo se livrar de sua tolice é descobrir que ele é tolo. Mas veja, esse é o ponto de partida não o de chegada. Depois da consciência da tolice, é preciso deixar de ser tolo!

Enquanto o tolo não enxerga a sua tolice não adianta argumentar. Não adianta tentar persuadir aquele que está completamente preso em si mesmo. E por quê? Porque onde há oprimidos há um opressor. Há um opressor dentro do tolo. Na conversa com ele percebe-se que não é com ele mesmo que se está tratando, mas com chavões, clichês, palavras de ordem, argumentos ad hominem, que operam nele e tomam conta de sua mente. O tolo, como diz Bonhoeffer, “está fascinado, obcecado, foi maltratado e abusado em seu próprio ser. Tendo-se tornado, assim, um instrumento sem vontade própria”.

Enfim, minha ojeriza pela tolice não deveria ser entendida como mero ódio ao tolo, mas, sim, como ódio ao poder que inevitavelmente precisa e se nutre da tolice humana.



___________________________
Fonte: jonasmadureira.blogspot.com
15 de jun. de 2010

O Batismo dos Filhos dos Crentes

R.C. Sproul
Gênesis 17:1-14; Atos 2:38,39; Atos 16:25-34

Embora o batismo de crianças tenha sido uma prática importante no cristianismo histórico, sua validade tem sido solenemente desafiada por cristãos piedosos de várias denominações. A questão em torno do batismo de crianças baseia-se em vários aspectos. O Novo Testamento não ordena explicitamente que as crianças sejam batizadas, nem explicitamente proíbe que sejam batizadas. O debate se concentra em questões que geram em torno do significado do batismo e do grau de continuidade entre a Antiga e a Nova Aliança.

A mais crucial objeção por parte daqueles que se opõem ao batismo de crianças é que o sacramento do batismo pertence aos membros da igreja, e que a igreja é uma companhia de crentes. Visto que as crianças são incapazes de exercer fé, não devem ser batizadas. Enfatiza-se também que dos batismos registrados no Novo Testamento não há nenhuma referência específica a crianças. Uma outra objeção é que a Antiga Aliança, embora não comunique a salvação por via biológica, pela linhagem de sangue, não obstante envolvia uma ênfase étnica à nação de Israel. A aliança era transmitida através dos laços familiares e nacionais. No Novo Testamento a aliança tornou-se mais abrangente, admitindo os gentios na comunidade da fé. Este sinal de descontinuidade estabelece uma diferença entre a circuncisão e o batismo.

Por outro lado, aqueles que são favoráveis ao batismo de crianças enfatizam seu paralelo com a circuncisão. Embora o batismo e a circuncisão não sejam idênticos, têm pontos cruciais em comum. Ambos são sinais da aliança e ambos são sinais da fé. No caso de Abraão, ele abraçou a fé depois de adulto e fez uma profissão de fé antes de ser circuncidado. Ele tinha fé antes de receber o sinal desta fé. Seu filho Isaque, por outro lado, recebeu o sinal da fé antes que tivesse a fé que o sinal simbolizava (como foi o caso de todos os outros filhos da aliança).

O ponto crucial é que no Antigo Testamento Deus ordenou que o sinal da fé fosse dado antes que a fé estivesse presente. Visto que esse era claramente o caso, seria um equívoco argumentar em princípio que é errado administrar um sinal de fé antes que a fé esteja presente.

É também importante observar que os relatos de batismos no Novo Testamento foram de adultos que anteriormente eram incrédulos. Pertenciam à primeira geração de cristãos. Além disso, sempre tem sido a regra que convertidos adultos (que não eram filhos de crentes em sua infância) devem primeiro fazer a profissão de fé antes de receberem o batismo, o qual é o sinal de sua fé.

Cerca de um quarto dos batismos mencionados no Novo Testamento indica que famílias inteiras foram batizadas. Isso sugere fortemente, embora não o prove, que as crianças eram incluídas entre os que eram batizados. Visto que o Novo Testamento não exclui explicitamente as crianças do sinal da aliança (e foram incluídas por milhares de anos enquanto o sinal da aliança era a circuncisão), naturalmente podemos presumir que na igreja primitiva as crianças deviam receber o sinal da aliança.

A história testemunha a favor dessa suposição. A primeira menção direta ao batismo de criança aconteceu por volta da metade do segundo século. O que é digno de nota nessa referência é que ela pressupõe que o batismo de crianças era uma prática universal da igreja. Se o batismo de crianças não fosse uma prática na igreja do primeiro século, como e por que este afastamento da ortodoxia aconteceu tão rápido e de forma tão prevalecente? Não só a difusão foi rápida e universal, como também a literatura remanescente daquela época não reflete qualquer controvérsia concernente a esta questão.

Em geral, a Nova Aliança é mais inclusiva do que a Antiga Aliança. Aqueles que contestam a validade do batismo de crianças estão tornando a Nova Aliança menos inclusiva com relação às crianças, a despeito da ausência de qualquer proibição bíblica contra o batismo de crianças.

Sumário

1. O Novo Testamento não ordena nem proíbe explicitamente o batismo de crianças.
2. Os defensores do batismo de filhos de crentes apontam para a continuidade entre a circuncisão e o batismo como sinais da fé.
3. A maioria dos batismos registrados no Novo Testamento era de adultos convertidos, da primeira geração de cristãos, os quais, é claro, não poderiam ter sido batizados quando crianças.
4. O registro dos batismos no Novo Testamento inclui batismo de "famílias", as quais provavelmente incluíam as crianças.
5. A história da igreja testifica quanto à prática universal, sem controvérsias, do batismo de filhos de crentes no segundo século.

_________________________
Fonte: Verdades Essenciais da Fé Cristã, R.C. Sproul, Ed. Cultura Cristã, 3º Caderno.


Extraído do site: http://www.eleitosdedeus.org/batismo-infantil/batismo-dos-filhos-dos-crentes-r-c-sproul.html#ixzz0qv5uo19z
Exerça seu Cristianismo: se vai usar nosso material, cite o autor, o tradutor (quando for o caso), a editora (quando for o caso) e o nosso endereço.
Under Creative Commons License: Attribution
4 de jun. de 2010

Mais chegado


Oh! Provai e vede que o Senhor é bom.
Salmo 34.8


https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgErUpofoBB-bpw-0dcConvIVOFj2bAT_eBKt4UxaF-6E41aliHhSCZ8yTTKMfPl8FZbu6xIF0wPvWp9rZpvbKVHOYQGeIqR2Zj-STG-09DND2H94DS2zBr5gBAXAw84HaYzwLXixZqoog/s400/criadoremmimdf6.jpgEste apelo da Palavra de Deus nos convida a uma vida de proximidade com Deus. Deus não se encontra inacessível. Ele é o Deus altíssimo, mas, ao mesmo tempo, está junto ao contrito e abatido de espírito. Ao sermos chamados para nos achegar a Deus, estamos convencidos de que não vamos bater em porta fechada.

Aproximar-se de Deus implica estar disposto a uma dieta espiritual, saboreando o genuíno leite espiritual (1Pe 2.2). Ninguém pode renunciar ao pão espiritual, alegando que no passado foi mais dedicado às coisas de Deus. Tal estoque não terá nenhum valor, caso não seja ministrado dia a dia em nossa vida.

Quando nos achegamos mais ao Senhor, somos lembrados de que não éramos absolutamente nada, nem povo, mas agora somos o povo de Deus, alcançados por sua infinita misericórdia. Em Cristo, somos raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus para proclamar o evangelho da salvação (1Pe 2.9-10).

Cada Dia